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Alexandre Nodari: A( )terra(r)

Olá, caríssimos! Depois de um não tão longo inverno, e faltando duas semanas para o início de nosso colóquio, voltamos com nossa série de entrevistas. Desta vez, Alexandre Nodari, editor da Cultura e Barbárie e membro da #ATOA, partiu da pergunta “Se Gaia tem mil nomes, como você prefere chamá-la?” para elaborar um breve ensaio que é uma espécie de manifesto eqológico.  Para baixá-lo em pdf clique aqui – e boa leitura!

terra

A( )terra(r)

O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.”
(Clarice Lispector)

Dos mil nomes de Gaia (todos femininos, imagino, o que é sintomático de um modo positivo), o que eu prefiro é Terra, porque nos traz pra baixo, pro chão, nos aterra, pra usar uma expressão sobre a qual a Déborah Danowski sempre insiste. Essa equivocidade Terra/terra, planeta e solo, me agrada muito, porque identifica o mundo com seu substrato material, que está abaixo de nós, que nos sustenta, e nos dá sustento, que é nossa subsistência. Acho que foi partindo dessa duplicidade que montamos (a #ATOA), durante a Cúpula dos Povos, na Rio+20, o simpósio terraterra, inspirados também no famoso poema concreto de Décio Pignatari, que ressalta, aliás, tal equivocidade: a terra erra; como todo planeta, ela é errante. A Terra é Gaia, mas também é gaiata. Nesse sentido, a “Errática” que Oswald de Andrade propunha, a ciência dos “vestígios erráticos” deixados pelo Matriarcado na história de todos os povos, talvez possa ser lida como uma ciência da terra (uma terrática), semelhante à geologia da moral deleuziana, mas também e especialmente uma gaiatologia: a feliz ciência não do homem, mas do gaiato, não dessa espécie envelhecida e que envelhece o planeta, a humanidade, mas daquele ainda por vir jovem habitante de Gaia, a ciência do bricoleur, da gambiarra. Para ser mais claro, o que a catástrofe ambiental em curso nos coloca como desafio é: como nos virar com os elementos que temos (subsistir por meio de uma eco-lógica do concreto), e não mais insistir na engenharia, na lógica conceitual e transcendente que busca uma saída (no limite, da Terra, e mesmo do corpo, etc.), que visa criar uma existência qualificada, livre de todos aqueles “baixos corporais” – sejam eles materiais, sejam os da linguagem – ao fim e ao cabo, uma vida humana extra-terrestre. Georges Bataille insistia muito na diferenciação entre o alto e o baixo materialismo: enquanto aquele é, na verdade, um idealismo, ao conceber ontologicamente a matéria como coisa em si, isto é, matéria-morta (é a estratégia de Meillassoux, diga-se de passagem); este, abandonando toda ontologia, busca pensar a matéria-viva, focando justamente na “putrescência da matéria orgânica” em que os homens (e todos os demais seres) plantamos suas raízes. E aqui entra uma outra consequência da equivocidade Terra/terra: tanto a terra é um oikos quanto a Terra é um ego, um sujeito: “o mundo é um animal extremamente sensitivo”, já dizia Campanella, ou, na variante de Clarice Lispector, “o mundo é extremamente recíproco”. E encontramos essa mesma equivocidade recíproca entre ego e oikos em todos os habitantes da Terra, vivos e não vivos: não só uma pedra é, por um lado, um ser próprio, inteiro, como também é, por outro, a casa de infinitas e infinitesimais partículas, uma verdadeira sociedade, como diria Gabriel Tarde – e oikos, casa, é uma noção acima de tudo social e política. E o mesmo se passa com os seres vivos, incluindo os humanos: somos ao mesmo tempo e inseparavelmente egos e oikoi. Cada ego humano é também uma multiplicidade: “nosso” corpo é formado por (é a casa de) infinitos corpos alheios: não só células humanas, mas também, pra dar o exemplo mais evidente, um sem número de bactérias da flora intestinal. E essa estranheza (alienação, para brincar com o jargão marxista) constitutiva, a de cada eu ser também a casa de uma multiplicidade de outros, aparece de diversas maneiras no pensamento dos povos: a noção de inconsciente, por exemplo – e, para pegar o gancho psicanalítico, de certa forma, o Unheimlich é um sentimento constitutivo (ainda mais nos dias de hoje), na medida em que o mais familiar é o mais estranho e vice-versa. E talvez uma das suas expressões mais interessantes no Ocidente seja a idéia estóica da oikeiosis, geralmente vertido por “apropriação”: todo animal passa a vida inteira se apropriando de sua constituição, de suas partes, e, a partir daí, se apropriando daquilo que faz bem a elas e a si. Se, como diziam os estoicos, a natureza não estranha o animal de si mesmo, porque ela o constitui como próximo e próprio a si (ou pertencendo a si) e não idêntico a si? Se há proximidade ou apropriação/pertencimento e não identidade ou igualdade, então há diferença, diferença de si, diferença imanente a si. Mas o mais curioso talvez seja que uma outra tradução, muito mais óbvia e literal, do termo oikeiosis pras línguas modernas possivelmente explique melhor o que está em jogo (e ao mesmo tempo desloque o que entendemos por esses termos): familiarização, ou ainda melhor, domesticação. Todo habitante terrestre é uma rede de parentescos (internas e externas); ele é a construção e manutenção de casas: toda biologia é biografia. O habitat não é só uma categoria biológica, mas uma escolha (ética) vital; todo habitat é um hábito, a consistência que adquire a inter-relação da multiplicidade de seres e intensidades que habitam cada vivente. O hábito do eu é o habitat de muitos; a vida é um “estado de contato”, como dizia Clarice. Mas isso não quer dizer que a duplicidade ego/oikos implique uma harmonia, muito pelo contrário: gera ruídos, problemas, ecos equívocos entre o eu e o oikos. Todo outro (mesmo os que nos habitam) é perigoso, perigoso justamente pela sua alteridade, porque é, no limite, desconhecido: não sabemos com certeza o que esperar dele. Assim, poderíamos dizer que há basicamente duas formas de domesticação, ou duas maneiras de conceber a domesticação. A primeira delas, dominante, é a estratégia de eliminar o perigo pela segurança, eliminar o erro, o eco, o ruído, seja em nossos corpos, seja dos animais, seja do “ambiente”. Trata-se da tentativa de construir uma casa segura (para os humanos) por meio da dominação, por meio do afastamento em relação a Terra e à terra, a animalidade e a matéria baixa: são os messianismos (religiosos e políticos) que visam a construção de uma casa (vida) extra-terrena, longe de toda necessidade. Mas existe outra estratégia, ou melhor, uma miríade de contra-estratégias que preservam ao máximo essa zona equívoca de ecos, essa passagem entre o ego e o oikos (de certo modo, as duas estratégias que evoco aqui ressoam a distinção levistraussiana entre sociedades antropoeméticas e as antropofágicas), passagem que podemos chamar também de obliquação, de “vida oblíqua” (pra usar o termo de Lispector, que indica uma passagem entre o eu e o mim, entre sujeito e objeto, passagem que permite toda inter-locução e é condição da tradutibilidade). Trata-se não mais de domesticação unipolar, mas de co-domesticação, cooikeiosis, em que a reciprocidade e não a unilateralidade tem proeminência. A isso, creio, podemos chamar, com Guattari, de “eco-lógica”, a “lógica das intensidades”, mas também um discurso (equivocamente) ecoante, uma lógica das reciprocidades. Toda ecologia é também ec(h)ologia, o ressoar do eu nos outros e vice-versa; além disso, é uma equivocologia, a mesma voz (casa), mas sempre diferente; em suma, é o ecoar da equivocidade do ego, o ego ecoando equívoco o oikos que também é (e reciprocamente). Ego-logia, echo-logia, oiko-logia, equivoco-logia: eQologia, para fazer uso daquele procedimento poético de Glauber Rocha (do qual Qorpo-Santo é um precursor), que consiste em mudar a grafia de certas palavras sem alterar a sua sonoridade (“brazyleiro” com “z” e “y”, por exemplo, inserindo uma não-identificação no cerne mesmo da identidade nacional, deslocando o sentido, produzindo uma diferença na igualdade: não por acaso, foi sugerido que a “différance” derridiana fosse traduzida pela escrita glauberiana como “dyferença”, com “y” no lugar do “i”), abrindo para a multiplicidade que toda unicidade tenta acobertar (o menos Um deleuziano). Desse modo, a ecologia/eQologia não consiste em um saber sobre a Terra, mas num discurso da Terra, que é um sujeito (ego) cujos hábitos são compostos na relação recíproca (ecoante) com aqueles que a habitam (que a tem como oikos). É preciso saber ouvir os ecos da Terra/terra, até porque nós também falamos a cada discurso seu: toda inter-locução é uma equi-vocidade. E é preciso fazer ecoar esse discurso, a reciprocidade que todo eco comporta, reciprocidade que a estratégia antropocêntrica de dominação quer fazer calar a qualquer preço – inclusive a própria extinção da humanidade.

Alexandre Nodari, agosto de 2014

 

INSCRIÇÕES ENCERRADAS

Pessoal,

Estamos muito felizes com a grande procura pelo colóquio internacional Os Mil Nomes de Gaia: do Antropoceno à Idade da Terra. Isto foi algo totalmente inesperado por nós, uma vez que eventos acadêmicos costumam ser bem modestos em termos de público. Ficamos mais do que surpresos quando as inscrições se esgotaram em cerca de hora e meia, algo inédito inclusive para a empresa que nos presta o serviço de organização e inscrição.

A Casa de Rui Barbosa foi extremamente generosa ao nos ceder uma estrutura que não teríamos como bancar fora dali, pois não é novidade que nossos recursos financeiros são muito limitados. Não há condições para mudarmos o evento para um local maior.

No entanto, encorajamos os interessados — pesquisadores, alunos, e todo o povo não-acadêmico a quem a questão de Gaia mobiliza —, a se reunirem com seus amigos e seus coletivos em suas casas ou instituições, em suas escolas ou universidades, para assistir ao colóquio via streaming e fazer desta oportunidade uma janela para pensar e discutir os temas levantados pelas conferências. Incentivamos que levem o colóquio para suas cidades, que façam debates em torno das falas, que produzam material acerca das ideias, e do pensamento contemporâneo da crise.

Se por um lado é frustrante não poder receber a todos na Casa de Rui Barbosa, por outro é muito gratificante levar o colóquio para todos os lugares, via internet, para tantos interessados, e sobretudo para aqueles que não conseguirão vir.

Para quem quiser arriscar: abriremos inscrições no local para preenchimento dos lugares vagos no caso de desistências — tanto no auditório principal como nas salas anexas, para onde as palestras serão transmitidas por streaming. Inscrições sujeitas à lotação diária!

Agradecemos a compreensão de todos e a enorme procura,

Venceremos!

Faixa de Gaia

As inscrições abrem amanhã!

Esquentai vossos pandeiros: nesta sexta-feira, dia 15 de agosto, às 9h, as inscrições serão abertas!

Clique ali na aba inscrições e siga as instruções. Lembre-se de que as vagas são limitadas.

E se você não conseguir se inscrever, nem tudo está perdido! Além de o evento contar com transmissão online, instalaremos um telão numa sala com 55 lugares, de onde se poderá também acompanhar o colóquio – a inscrição neste caso se dará no local do evento, por ordem de chegada.

Esperamos vocês lá!

Vaquinha para Gaia

Pessoal, estamos realizando uma vaquinha para fecharmos o orçamento do colóquio. Assista ao vídeo abaixo para saber mais sobre por que estamos recorrendo à vaquinha, e, caso queira colaborar, mande um email para osmilnomesdegaia@gmail.com que enviaremos as instruções. Gaia agradece.

P.S: em breve abriremos as inscrições. Fiquem atentos =)

 

Renzo Taddei: os profetas e os espíritos

Mais uma entrevista! Renzo Taddei é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, e também do Instituto do Mar, na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Engenheiro que virou antropólogo, suas pesquisas focam-se nas distintas formas de se entender e viver a atmosfera, tendo realizado pesquisa de campo entre meteorologistas e os chamados “profetas da chuva” do sertão nordestino. Editou, com Ana Laura Gamboggi, o livro Depois Que a Chuva Não Veio: Respostas Sociais às Secas na Amazônia, no Nordeste e no Sul do Brasil (2010). O titulo de sua conferência em nosso colóquio é Geoengenharia espiritual, na qual ele discutirá as relações entre a engenharia climática e contextos culturais onde a compreensão do meio ambiente não reproduzem o padrão materialista (ou naturalista, para usar o termo proposto por Philippe Descola) do pensamento ocidental, estando mais ligados a formas animísticas de relação entre humanos e os elementos – em particular, tratará de como tradições ameríndias e afro-brasileiras pensam o tema da manipulação da atmosfera, e o que isso pode trazer de contribuição ao debate sobre a geoengenharia. No vídeo, ele fala sobre os profetas da chuva e o Cacique Cobra Coral, entre outros, e recebe uma visita muito especial aos 7’38”. Olhem lá!