Arquivo do mês: setembro 2014

Povinelli, Haraway e agradecimentos

Nosso colóquio foi um sucesso! Muito obrigada a todas as pessoas que foram à Casa de Rui Barbosa, assistiram pelo streaming e participaram do debate. Ficamos felicíssimos com o resultado e esperamos que Os Mil Nomes de Gaia tenha ajudado a incentivar a discussão e a ação sobre a questão ambiental em suas diversas formas e vozes.

Vamos, assim que forem editados, disponibilizar os vídeos com as conferências aqui no blog. Por enquanto, atendendo a pedidos e para não perdermos o ritmo, eis as duas entrevistas que exibimos durante a semana passada, com as maravilhosas Elizabeth Povinelli e Donna Haraway!

 

Anúncios

Para assistir ao vivo clique no link abaixo.

TRANSMISSÃO ONLINE – AO VIVO – ÁUDIO ORIGINAL

TRANSMISSÃO ONLINE – AO VIVO – AUDIO TRADUZIDO

Habemus folder!

Clique aqui para ver o folder eletrônico do colóquio, com a programação atualizada

Picture 1

Alexandre Nodari: A( )terra(r)

Olá, caríssimos! Depois de um não tão longo inverno, e faltando duas semanas para o início de nosso colóquio, voltamos com nossa série de entrevistas. Desta vez, Alexandre Nodari, editor da Cultura e Barbárie e membro da #ATOA, partiu da pergunta “Se Gaia tem mil nomes, como você prefere chamá-la?” para elaborar um breve ensaio que é uma espécie de manifesto eqológico.  Para baixá-lo em pdf clique aqui – e boa leitura!

terra

A( )terra(r)

O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.”
(Clarice Lispector)

Dos mil nomes de Gaia (todos femininos, imagino, o que é sintomático de um modo positivo), o que eu prefiro é Terra, porque nos traz pra baixo, pro chão, nos aterra, pra usar uma expressão sobre a qual a Déborah Danowski sempre insiste. Essa equivocidade Terra/terra, planeta e solo, me agrada muito, porque identifica o mundo com seu substrato material, que está abaixo de nós, que nos sustenta, e nos dá sustento, que é nossa subsistência. Acho que foi partindo dessa duplicidade que montamos (a #ATOA), durante a Cúpula dos Povos, na Rio+20, o simpósio terraterra, inspirados também no famoso poema concreto de Décio Pignatari, que ressalta, aliás, tal equivocidade: a terra erra; como todo planeta, ela é errante. A Terra é Gaia, mas também é gaiata. Nesse sentido, a “Errática” que Oswald de Andrade propunha, a ciência dos “vestígios erráticos” deixados pelo Matriarcado na história de todos os povos, talvez possa ser lida como uma ciência da terra (uma terrática), semelhante à geologia da moral deleuziana, mas também e especialmente uma gaiatologia: a feliz ciência não do homem, mas do gaiato, não dessa espécie envelhecida e que envelhece o planeta, a humanidade, mas daquele ainda por vir jovem habitante de Gaia, a ciência do bricoleur, da gambiarra. Para ser mais claro, o que a catástrofe ambiental em curso nos coloca como desafio é: como nos virar com os elementos que temos (subsistir por meio de uma eco-lógica do concreto), e não mais insistir na engenharia, na lógica conceitual e transcendente que busca uma saída (no limite, da Terra, e mesmo do corpo, etc.), que visa criar uma existência qualificada, livre de todos aqueles “baixos corporais” – sejam eles materiais, sejam os da linguagem – ao fim e ao cabo, uma vida humana extra-terrestre. Georges Bataille insistia muito na diferenciação entre o alto e o baixo materialismo: enquanto aquele é, na verdade, um idealismo, ao conceber ontologicamente a matéria como coisa em si, isto é, matéria-morta (é a estratégia de Meillassoux, diga-se de passagem); este, abandonando toda ontologia, busca pensar a matéria-viva, focando justamente na “putrescência da matéria orgânica” em que os homens (e todos os demais seres) plantamos suas raízes. E aqui entra uma outra consequência da equivocidade Terra/terra: tanto a terra é um oikos quanto a Terra é um ego, um sujeito: “o mundo é um animal extremamente sensitivo”, já dizia Campanella, ou, na variante de Clarice Lispector, “o mundo é extremamente recíproco”. E encontramos essa mesma equivocidade recíproca entre ego e oikos em todos os habitantes da Terra, vivos e não vivos: não só uma pedra é, por um lado, um ser próprio, inteiro, como também é, por outro, a casa de infinitas e infinitesimais partículas, uma verdadeira sociedade, como diria Gabriel Tarde – e oikos, casa, é uma noção acima de tudo social e política. E o mesmo se passa com os seres vivos, incluindo os humanos: somos ao mesmo tempo e inseparavelmente egos e oikoi. Cada ego humano é também uma multiplicidade: “nosso” corpo é formado por (é a casa de) infinitos corpos alheios: não só células humanas, mas também, pra dar o exemplo mais evidente, um sem número de bactérias da flora intestinal. E essa estranheza (alienação, para brincar com o jargão marxista) constitutiva, a de cada eu ser também a casa de uma multiplicidade de outros, aparece de diversas maneiras no pensamento dos povos: a noção de inconsciente, por exemplo – e, para pegar o gancho psicanalítico, de certa forma, o Unheimlich é um sentimento constitutivo (ainda mais nos dias de hoje), na medida em que o mais familiar é o mais estranho e vice-versa. E talvez uma das suas expressões mais interessantes no Ocidente seja a idéia estóica da oikeiosis, geralmente vertido por “apropriação”: todo animal passa a vida inteira se apropriando de sua constituição, de suas partes, e, a partir daí, se apropriando daquilo que faz bem a elas e a si. Se, como diziam os estoicos, a natureza não estranha o animal de si mesmo, porque ela o constitui como próximo e próprio a si (ou pertencendo a si) e não idêntico a si? Se há proximidade ou apropriação/pertencimento e não identidade ou igualdade, então há diferença, diferença de si, diferença imanente a si. Mas o mais curioso talvez seja que uma outra tradução, muito mais óbvia e literal, do termo oikeiosis pras línguas modernas possivelmente explique melhor o que está em jogo (e ao mesmo tempo desloque o que entendemos por esses termos): familiarização, ou ainda melhor, domesticação. Todo habitante terrestre é uma rede de parentescos (internas e externas); ele é a construção e manutenção de casas: toda biologia é biografia. O habitat não é só uma categoria biológica, mas uma escolha (ética) vital; todo habitat é um hábito, a consistência que adquire a inter-relação da multiplicidade de seres e intensidades que habitam cada vivente. O hábito do eu é o habitat de muitos; a vida é um “estado de contato”, como dizia Clarice. Mas isso não quer dizer que a duplicidade ego/oikos implique uma harmonia, muito pelo contrário: gera ruídos, problemas, ecos equívocos entre o eu e o oikos. Todo outro (mesmo os que nos habitam) é perigoso, perigoso justamente pela sua alteridade, porque é, no limite, desconhecido: não sabemos com certeza o que esperar dele. Assim, poderíamos dizer que há basicamente duas formas de domesticação, ou duas maneiras de conceber a domesticação. A primeira delas, dominante, é a estratégia de eliminar o perigo pela segurança, eliminar o erro, o eco, o ruído, seja em nossos corpos, seja dos animais, seja do “ambiente”. Trata-se da tentativa de construir uma casa segura (para os humanos) por meio da dominação, por meio do afastamento em relação a Terra e à terra, a animalidade e a matéria baixa: são os messianismos (religiosos e políticos) que visam a construção de uma casa (vida) extra-terrena, longe de toda necessidade. Mas existe outra estratégia, ou melhor, uma miríade de contra-estratégias que preservam ao máximo essa zona equívoca de ecos, essa passagem entre o ego e o oikos (de certo modo, as duas estratégias que evoco aqui ressoam a distinção levistraussiana entre sociedades antropoeméticas e as antropofágicas), passagem que podemos chamar também de obliquação, de “vida oblíqua” (pra usar o termo de Lispector, que indica uma passagem entre o eu e o mim, entre sujeito e objeto, passagem que permite toda inter-locução e é condição da tradutibilidade). Trata-se não mais de domesticação unipolar, mas de co-domesticação, cooikeiosis, em que a reciprocidade e não a unilateralidade tem proeminência. A isso, creio, podemos chamar, com Guattari, de “eco-lógica”, a “lógica das intensidades”, mas também um discurso (equivocamente) ecoante, uma lógica das reciprocidades. Toda ecologia é também ec(h)ologia, o ressoar do eu nos outros e vice-versa; além disso, é uma equivocologia, a mesma voz (casa), mas sempre diferente; em suma, é o ecoar da equivocidade do ego, o ego ecoando equívoco o oikos que também é (e reciprocamente). Ego-logia, echo-logia, oiko-logia, equivoco-logia: eQologia, para fazer uso daquele procedimento poético de Glauber Rocha (do qual Qorpo-Santo é um precursor), que consiste em mudar a grafia de certas palavras sem alterar a sua sonoridade (“brazyleiro” com “z” e “y”, por exemplo, inserindo uma não-identificação no cerne mesmo da identidade nacional, deslocando o sentido, produzindo uma diferença na igualdade: não por acaso, foi sugerido que a “différance” derridiana fosse traduzida pela escrita glauberiana como “dyferença”, com “y” no lugar do “i”), abrindo para a multiplicidade que toda unicidade tenta acobertar (o menos Um deleuziano). Desse modo, a ecologia/eQologia não consiste em um saber sobre a Terra, mas num discurso da Terra, que é um sujeito (ego) cujos hábitos são compostos na relação recíproca (ecoante) com aqueles que a habitam (que a tem como oikos). É preciso saber ouvir os ecos da Terra/terra, até porque nós também falamos a cada discurso seu: toda inter-locução é uma equi-vocidade. E é preciso fazer ecoar esse discurso, a reciprocidade que todo eco comporta, reciprocidade que a estratégia antropocêntrica de dominação quer fazer calar a qualquer preço – inclusive a própria extinção da humanidade.

Alexandre Nodari, agosto de 2014